A trajetória do menino que iniciou sua carreira como locutor de barraquinhas e hoje é um dos radialistas mais representativos do Brasil: Acir Antão conta do inicio da sua carreira, de suas dificuldades e como elas perpassaram-se ao longo de quatro décadas de profissão.
SINTONIAAMFM: Quais foram as principais dificuldades enfrentadas por você no início da sua carreira?
Acir: Foram muitas, porque naquela época não tínhamos o que vocês têm hoje, que é o curso de jornalismo. Naquela época tínhamos a vocação, e a vocação nos levava a pedir para a gente participar de coberturas jornalísticas, era como aprendiz. Toda redação de Jornal rádio naquela época tinha um garoto que ficava por ali, sem ganhar nada aprendendo. E eu fiquei alguns anos trabalhando de graça. Eu tive um vestibular muito bom na minha vida, com 12 anos, eu era locutor de barraquinhas da igreja do meu bairro. Então ali fui treinando, familiarizando com o microfone o improviso, com as coisas que eu vivia ali e foram úteis quando eu cheguei ao Rádio. Como locutor eu cheguei praticamente pronto, mas ai fui aprender as malícias de uma redação da reportagem e aprendi muito com aquelas pessoas quem trabalhei no início da minha carreira. Comecei com 16 anos tive muitas dificuldades. Naquela época era difícil, te davam um gravador e falavam “se vira”. Eu saia ia aos locais que geravam notícias, comecei com o futebol então eu ia aos clubes. Os clubes da cidade naquela época eram: Cruzeiro, Atlético, América, Renascença e Sete de Setembro. Cinco Clubes profissionais em Belo Horizonte e eu fazia cobertura nesses clubes, entrevistava os jogadores; e foi assim. E eu fazia tudo isso a pé. O interessante que a primeira rádio que eu trabalhei efetivamente foi a Rádio Jornal de Minas, hoje Rádio América e a rádio era na Rua Guarani. Eu saia da Rua Guarani oito horas da manhã, às vezes antes das oito ia ao campo do América, depois no campo do Atlético, do Atlético ao Cruzeiro. E do Cruzeiro voltava à rádio.
SINTONIAAMFM: As dificuldades em fazer rádio há quarenta anos são as mesmas hoje em dia?
Acir: Não… As dificuldades de antes eram grandes. Primeiro; não tinha telefone celular. O telefone era um bem que não é como hoje, que todo mundo tem. Pra você ter uma ideia, a Rádio Jornal tinha um telefone que atendia: O escritório, o esporte, o noticiário, a área artística, o estúdio. Era um telefone! Então… Quando se fazia uma transmissão por telefone a rádio ficava sem comunicação, sem telefone. Era difícil conseguir uma linha para fazer uma transmissão. Às vezes quando ia se cobrir um acidente, um incêndio, chegava-se, tomava conta de uma linha de telefone e não deixava ninguém pegar, por que se não, não se tinha linha para transmitir. Era difícil!
SINTONIAAMFM: Qual a importância que você atribui à formação acadêmica?
Acir: Muito grande. Por que hoje você tem como aliado a vocação. Por que eu acho que quem quer ser radialista tem que ter vocação. Jornalista é… No inicio uma profissão como toda profissão. De muito sacrifício de um aprendizado muito grande que requer em todas as suas nuances muita boa vontade, muito desprendimento, muita entrega. O jornalista trabalha domingo, trabalha dia santo, feriado, noticia não tem hora para acontecer. Hoje temos no mercado, profissionais de grande reconhecimento, e as pessoas falam que o jornalista fulano de tal é famoso e etc. Da mesma maneira como tem médico e engenheiro, todos passam por dificuldades. Toda profissão exige, primeiramente, vocação, se você não for vocacionado não adianta. Tem que ter vocação para ser jornalista.
SINTONIAAMFM: Você acha que o curso de comunicação prepara os alunos para enfrentar os desafios e dificuldades do mercado de trabalho em uma rádio ou televisão?
Acir: Acho que prepara. Mas junto com isso que estou te falando. Você em qualquer sala de aula sendo um bom aluno você vai aprender, se você não for não vai aprender e não vai se preparar nunca.
SINTONIAAMFM: E como você avalia essa questão que o diploma não tem mais uma validade legal não existe essa obrigatoriedade para o exercício da profissão?
Acir: A lei já foi pra aqueles que se tornaram jornalistas, porque não havia curso. Como é meu caso. Eu sou jornalista antes do curso. Então, todos nós quando a profissão foi regulamentada, que estávamos naquele antigo exercício da profissão tivemos o direito de nós profissionalizarmos, porque a partir daquela data ia valer a lei. E a lei como todo o curso, se você cursa medicina ou engenharia você tem direito ao diploma. Eu acho o diploma muito importante.
SINTONIAAMFM: Quais foram as principais dificuldades enfrentadas por você em cobrir a visita de João Paulo II ao Brasil, em 1980 e 1992, e como você contornou-as?
Acir: Bem, em 1980 foi uma dificuldade muito grande, porque eu tinha que chegar aos locais onde o Papa ia celebrar missa, enfrentar a segurança, enfrentar a multidão. Era muito comum eu chegar aos locais, apesar de estar com o crachá de imprensa especializada não conseguir passar pela segurança. Não se sabia, e não conhecia os locais. Era como aqui em Belo Horizonte tem-se a Praça do Papa e a Praça da Bandeira. Não se conseguia ir de carro de uma praça a outra. Tinha que enfrentar tudo isso, uma Avenida Afonso Pena dessas ai, eu tinha que subir carregando minha mala, a mala da rádio. Chegar lá e identificar o local da empresa, ligar pra rádio, falar de lá. Ser repórter ser operador. Ser tudo. Foi assim que fizemos em 1980. Em 1992 foi melhor, por que foi um operador comigo. O operador fazia a parte mais importante quer era fazer a ligação com a rádio. E eu fiz o meu papel jornalístico.
SINTONIAAMFM: Como se deu sua inserção na Rádio Itatiaia e como é a sua interação com o público?
Acir: Eu vim trabalhar na rádio Itatiaia em 1970. Eu trabalhava na extinta Rádio Minas, e na Rádio Minas eu fazia de tudo. Eu era repórter de futebol, político. Eu lia noticias, era locutor comercial, apresentador de programa. Eu vim pra Itatiaia para ser locutor noticiárista. Esse locutor que lê noticiário de hora em hora. Depois por contingências, faltavam pessoas para apresentar o programa. Fui me revelando no início com muita dificuldade, ninguém me conhecia. E ai surgiu a oportunidade para fazer um programa. – vou fazer um programa de samba. Pode? Pode. Revelei-me como apresentador de programa de samba, e com isso ampliei meus horizontes dentro da profissão, trazendo tudo aquilo que eu sabia fazer para dentro da Rádio Itatiaia. E hoje a interação com o público é muito grande. Porque eu faço um programa aos domingos, que eu dou mais ou menos a receita do cara que ta dentro de casa, curtindo o domingo, curtindo aquele dia gostoso. No programa que eu faço diariamente eu converso com a dona de casa, faço um programa voltado para a dona de casa. Quer dizer… Eu acho que até que com meu público eu transo bem.
SINTONIAAMFM: Como foi acompanhar Tancredo Neves à Europa e América do Sul, houve muitos desafios e dificuldades nessa viagem. Você pode citar algumas e como você contornou todas?
Acir: Bem! Outra coisa que eu peço muito quem vai fazer jornalismo hoje, embora naquela oportunidade eu não tenha passado essa dificuldade, porque eu estava com muita gente. Primeiro é saber bem falar inglês. Eu não sei nada de inglês. Eu acho que essa é uma exigência de quem vai fazer jornalismo. Saber pelo menos outra língua; isso facilita. Por que ir a um lugar para fazer uma transmissão e você não falar bem outra língua é mais difícil. Embora eu tenha entendido bem o italiano, em Portugal e na Argentina não tive tanta dificuldade. Mas nos EUA e na França eu tive uma dificuldadezinha. Foi um momento muito importante da minha vida, porque o Brasil estava saindo de um regime militar. A chamada ditadura militar. E ia entrar em um processo de democratização com o primeiro presidente civil eleito ainda pelos trâmites do regime militar, que era o colégio eleitoral. Era o homem que ia nos devolver a eleição direta para presidente, que nos ia devolver a liberdade etc e tal. Então muita gente achou que estavam ali resolvidos todos os problemas do Brasil. Não. Nós íamos começar a resolver os problemas do Brasil com a democracia com o estado de direita democrático. Foi muito importante acompanhar aquele político que era um dos mais experientes do Brasil e foi o nome que unificou toda a nação. Eu estou me lembrando aqui do Glauber Rocha* que naquela época na televisão fazia um comentário em um programa chamado: Abertura, da TV Tupi, e dizia assim: “O Brasil tinha que ser uma grande feijoada, unir todos os pedaços do país, unir todas as tendências para lutar pela democracia”. E foi o que fizemos. E com um destaque para o PT, que não votou no Tancredo Neves. O PT não foi aquele partido que ajudou a votar no Tancredo, se nós precisássemos do voto do PT para voltarmos à democracia, não voltaríamos. Porque o PT não votou e quem votou em Tancredo Neves do PT naquela época foi expulso do partido. A Bete Mendes** e outro deputado que não estou lembrando o nome dele, me fugiu da memória. Foram expulsos do partido, porque votaram no Tancredo; eles acharam importante todas às tendências de oposição votar naquele homem que foi escolhido para ser o cara que ia devolver a democracia do país. Tancredo não pode tomar posse, mas ficou no lugar dele o Sarney que manteve o compromisso da democracia.
SINTONIAAMFM: Você citou a ditadura. Na época da ditadura você enfrentou muitas dificuldades para exercer a profissão?
Acir: Enfrentei. Porque você vivia sobre a vigilância da Censura. Às vezes eu ficava sabendo das coisas, porque a censura me informava. O sensor chegava aqui e falava: “Estão proibidos, toda e qualquer forma de citação, ou discurso feito em relação ao enfrentamento da força de segurança com os comunistas em tal lugar.” Tem uma novela do SBT que levanta bem essa fase do país, e por sinal esta muito interessante, a novela se chama: Amor e revolução.
SINTONIAAMFM: Você afirma no site da Itatiaia que Rádio Bom é Rádio que presta serviço. Por quê?
Acir: Por que se o rádio não prestar serviço ele perde sua função. O jornal, o rádio, a televisão primeiramente em concessão pública, eles tem o dever de prestar serviço. O mais importante do rádio é quando você vê assim: – Atenção dona Fulana, favor entrar em contato com o senhor Fulano. Essa é a maior e mais importante função que o rádio faz. Fazer as pessoas se comunicarem. Então quando se tem um anúncio, um recado ai o rádio esta cumprindo bem a sua função. Não só na publicidade, não só na notícia, mas também nessa forma.
SINTONIAAMFM: Você acredita que os problemas e dificuldades que vão surgindo na profissão eles se modificam de acordo com o contexto social de cada década?
Acir: Ah Claro! O jornalista de hoje não é jornalista de trinta, quarenta anos atrás. O contexto mudou, hoje não é mais máquina de escrever é o computador. O sistema de fazer jornal não é mais o mesmo de trinta anos atrás; que tinha monotipia***, que tinha chumbo nas tinas. O cara na oficina de impressão que ficava todo sujo de graxa. Ainda temos a tinta, mas hoje é mais suave, a impressão é diferente tudo mudou, e tudo vai mudar sempre.
SINTONIAAMFM: A gente percebe que você não tem um computador na sua mesa, você se adaptou as novas tecnologias?
Acir: O computador fica ali (nesse momento Acir nos aponta o computador na sala ao lado.) eu não fico com o computador na minha mesa. Alias a minha mesa, pra você vê é essa confusão aqui. (Papeis amontoados dividem espaço com múltiplas capas de CDs e muitas outras coisas espalhadas) Porque eu nunca tenho tempo, já estou aqui e já estou saindo. Aí fico deixando pra depois, depois, depois… De vez em quando eu dou uma geral aqui.
SINTONIAAMFM: O que Lupicínio Rodrigues representa na sua vida e carreira?
Acir: Lupicínio Rodrigues é um compositor que eu gosto muito. Ele fala da dor de cotovelo, é o que se chama de fossa. Um cara que sofreu de todas as dores de cotovelo foi Lupicínio Rodrigues. Então como ele é um compositor, não muito abandonado, não muito esquecido, eu quis dar um destaque a ele quando eu idealizei o espetáculo sobre o Lupicínio. É uma das formas de se mostrar, um estilo de música que o Brasil teve no final da década de quarenta começo da de cinquenta. Lupicínio teve uma importância muito grande para o Estado do Rio Grande do Sul, assim como teve Rômulo Paes pra Minas Gerais; Adoniran Barbosa para São Paulo; Dorival Caymmi para a Bahia. Assim por diante.
SINTONIAAMFM: Como foi o processo de criação e pesquisa de seu show Acir Antão Canta Lupicínio?
Acir: Eu conheço Lupicínio desde garoto. Por que desde menino eu gostava muito das músicas dele. Eu cantava as suas músicas desde os doze treze anos de idade. E ai eu fui tomando conhecimento. De acordo com que você vai namorando, tendo seus casinhos de amor você vai conhecendo as músicas. Então eu conheci Lupicínio Rodrigues e me aprofundei na sua obra. Ele ainda era vivo, quando conheci suas músicas, acompanhei muito as entrevistas dele, e acabei conhecendo ele. Isso foi muito bom, me ajudou muito, e no dia que eu montei o espetáculo eu já sabia as músicas que eu ia cantar. Eu já sabia e conhecia tudo.
SINTONIAAMFM: Pra finalizar. Você deixa uma mensagem para os futuros jornalistas, positiva ou negativa do mercado?
Acir: Olha, Positiva! A mensagem é positiva, e quero dizer a vocês estudantes. Primeiro é a vocação, se não tiver vocação pra ser jornalista, não adianta, vai forma e vai fazer outra coisa na vida. Por que jornalismo tem que ter vocação. E outra coisa, formou; agora é que vai começar a grande luta. Porque o emprego e a oportunidade em um mercado como o nosso, que colocam trezentos, quatrocentos jornalistas por ano no mercado, não temos órgãos de comunicação o suficiente para tanta gente. E reafirmo que os estudantes têm que ter vocação, ter a profissão como sacerdócio, abraçar a primeira oportunidade, seja ela onde for. Hoje o jornalista ele é assessor de impressa. Um artista, um jogador de futebol não vive sem um assessor. Quer dizer, a profissão apesar de tudo ela esta bem valorizada, aquele que sonha em trabalhar em um órgão de comunicação como rádio, televisão, em um jornal tem que levar tudo isso com muita vontade.
* cineasta
** Atriz
*** técnica de impressão
por: César Augusto Alves e Hudson Freitas